‘Narcos’ é mesmo tudo isso que você ouviu falar?

NARCOS S01E06 " Eplosivos"

Que ‘Narcos‘ narra a história de um dos mais poderosos chefões do tráfico de drogas do mundo nos anos 80 – o colombiano Pablo Escobar – você já deve estar cansado de saber. O fato de a série ser dirigida e estrelada pelos brasileiros José Padilha e Wagner Moura, respectivamente, também não é nenhuma novidade, mesmo para quem ainda nem pensou em assistí-la. Então, vamos pular a parte introdutória, em que eu explicaria sobre o que é e quem faz a série, e vamos direto ao assunto. Sim, ‘Narcos‘ é mesmo tudo isso que estão dizendo por aí: “sensacional”, “digna de prêmios”, “viciante”, e por aí vai.

Com ritmo característico das produções comandadas por José Padilha – principalmente nos dois primeiros episódios, que são os assinados por ele (Padilha é produtor executivo da série, mas divide a direção dos dez episódios da primeira temporada com Guillermo Navarro, Andi Baiz e Fernando Coimbra) -, ‘Narcos‘ é uma espécie de colagem de cenas e fotos reais da época, que vai desde de que Escobar começou sua carreira no crime até se transformar no chefão do famoso Cartel de Medellín, com atuações afiadas nas cenas dramatizadas que reconstituem os momentos históricos da vida do traficante e da realidade sócio-político da Colômbia – o que, sem sombra de dúvidas, ajuda e muito a nos situarmos na trama.

E por falar em atuações afiadas, nada mais justo do que destacar o trabalho de Wagner Moura. Na pele do carismático, poderoso e sanguinário Pablo Escobar, o ator impressiona por conseguir traduzir com olhares a complexidade de um personagem que é, ao mesmo tempo, um assassino frio e uma espécie de Robin Hood dos desvalidos colombianos; um anti-herói capaz de se comover com o sofrimento de um cachorro e matar a pauladas um amigo. Escalar um brasileiro, cuja língua nativa não é o espanhol, para viver um dos colombianos mais conhecidos da história poderia ter sido um grande erro, mas não foi. O que pode ter se perdido no quesito fluência da língua e sotaque colombiano, ganhou-se em talento. E vamos combinar que se eu, brasileira como ator, honestamente não consigo perceber a tão comentada falta de domínio de Wagner Moura sobre o espanhol da Colômbia – afinal, na falta de amigos colombianos, não tenho ideia de como é o sotaque dos nativos do país -, o resto do mundo (a quem a série da Netflix é direcionada), que também não é fluente em espanhol, também não conseguirá, né?

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Outro acerto de ‘Narcos‘ foi a escolha por mostrar Pablo Escobar através da visão do agente do DEA (Drug Enforcement Administration – órgão americano responsável pelo combate às drogas) Steve Murphy, interpretado por Boyd Holbrook. O fato da história ser narrada em primeira pessoa pelo policial, evita uma tentativa clichê de redenção dos pecados de um vilão pra lá de sedutor e, ao mesmo tempo, faz com que o vale-tudo na luta dos policiais para derrubar Escobar termine transformando o bem e o mal em conceitos relativos e fazendo de todos os personagens mais humanos. Assim, o roteiro da série criada por Chris Brancato, Carlo Bernard e Doug Miro termina deliberadamente apagando os limites que separam os vilões dos mocinhos.

Comuns nos trabalhos de Padilha, as duras críticas aos Estados Unidos – neste caso, especificamente aos governos de Richard Nixon (1969-1974), que fez vista grossa à chegada da cocaína no país; e Ronald Reagan (1981 a 1989), que só se preocupava com o fantasma do comunismo enquanto a cocaína se espalhava por diversos estados americanos – não ficam de fora da série. ‘Narcos‘ faz questão de mostrar que a omissão dos americanos em relação à entrada das drogas vindas da Colômbia nos Estados Unidos criou um ambiente pra lá de favorável à proliferação do tráfico no mundo todo.

O resultado final é uma trama viciante que alterna com precisão momentos dramáticos com cenas de ação e tensão que hipnotizam o espectador, principalmente se esse espectador, como eu, for do tipo de que se interessa por histórias reais. Resumindo, ‘Narcos‘ é um documento histórico primoroso sobre um personagem icônico, ao mesmo tempo amado e odiado por muitos, que há anos inspira a indústria cultural e já foi tema de diversas séries e filmes, sem perder seu poder de exercer sobre o mundo um fascínio ambíguo. Vale muito a pena conferir.

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